Valeu, Torquato!


Não conhecia Torquato. Era um dia como outro qualquer, me acomodei na poltrona do cinema e com um ar um pouco cansado sussurrei "tomara que seja bom".

O filme começou e não demorou muito para eu me sentir totalmente envolvida. E que surpresa boa! Num caminho de descobertas, acompanhada pelas mais lindas poesias e composições, eu o conheci: Torquato Neto, se apresentando como no primeiro verso de Cogito, pronome pessoal e intransferível.

O documentário ganha as telas do cinema brasileiro trazendo a vida e obra do poeta piauiense Torquato Neto. Nascido em Teresina, em 1944, Torquato se mudou para Salvador ainda adolescente, lá conheceu nomes como Caetano e Gil. Pouco tempo depois mudou-se para o Rio de Janeiro onde estudou jornalismo.

[caption id="attachment_1520" align="aligncenter" width="749"] Torquato Neto (1944-1972)[/caption]

O poeta-jornalista-compositor-cinéfilo deixava sua marca em todos os lugares por onde passava. Em sua vida/morte se envolveu em tudo que podia [e queria!]: na poesia, na música, no cinema, no jornalismo... na cultura! Começou a compor em meados dos anos 60, aderiu ao Tropicalismo e compôs algumas [muitas] das músicas mais marcantes do movimento.

Com um estilo visual de brilhar os olhos, o documentário foge do convencional e vem com uma proposta pra lá de encantadora: era ele ali!

Num visual composto por 200 fotos do arquivo de Torquato e 40 filmes do seu gosto. Para contar a história não só as músicas [que já dizem muito] mas 26 textos da sua autoria, entre eles, poesias, cartas, trechos de colunas, todos interpretados de forma brilhante pelo ator Jesuíta Barbosa. Que trabalho incrível!

 

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O filme tem sua estreia marcada para amanhã, quinta-feira, dia 08 de março de 2018pelo projeto Sessão Vitrine Petrobras. Os ingressos são vendidos a preço reduzido R$ 12 (inteira), através da bilheteria ou “Cartão Fidelidade SESSÃO VITRINE PETROBRAS”, que poderá ser adquirido no site do projeto.

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Em entrevista, os diretores Eduardo Ades e Marcus Fernando compartilham com o Pipocando o processo de produção do DOC:

#1 Como se deu a origem desse projeto?


[Marcus:] Acontece que a gente percebia o quanto o Torquato é importante, o quanto ele produziu em tão pouco tempo, tendo morrido com 28 anos, e as pessoas não o conhecem. Eu percebia que existia uma importância de uma obra que as pessoas conheciam pouco e que merecia ser mais conhecida. Até mesmo a ligação dele com a Tropicália, que é o evento mais importante na vida dele como artista, é uma coisa que às vezes eu vejo matérias que mal citam, e quando citam. Então ele acabou ficando um pouco esquecido nesse processo. O documentário vem pra trazer à tona esse troço que estava escondido. Um certo tesouro que precisava ser mostrado.

 

#2 Xico Sá coloca "O Brasil precisa descobrir Torquato Neto, o grande poeta do Tropicalismo decifrou a melancolia de um país que se julga alegre." Em tempos que essa frase se faz tão presente, como vocês decidiram abordar esse assunto?


[Eduardo:] O filme tem como objetivo principal trazer à tona a produção dele, não só dizer o que ele produziu, mas a gente chegar na poética dele. Por mais que trate sobre os anos 60/70, a gente tá fazendo um filme para 2018 em diante. Aqueles eram anos muito conturbados, eles estavam ali vivendo o início da ditadura, o AI-5, o regime militar; e ele vai encontrar as brechas disso. Torquato em vários textos expressa o "Como encontrar os espaços" "Como encontrar as brechas" "Como fazer surgir alguma transgressão"  e isso vai para além da Tropicália.

[Marcus:] Até porque a Tropicália tinha um conceito muito mais amplo... Era o cabelão, a roupa colorida, comportamento meio andrógeno... Tinha muito coisa ali, muita informação, muita contra-cultura.

[Eduardo:] Para além da Tropicália, porque quando ele entra naquele período pós-tropicalista, mais contra-cultura, que tinha aquela coisa da ocupação do espaço público, da praia como um lugar de experiência. Ele vai viver essa praia e vai jogar essa mesma praia pro jornal, na coluna Geléia Geral, contando o que tá acontecendo na praia, a importância do corpo...

 



 

#3 O filme conta com a "dublagem" de Torquato feita pelo ator Jesuíta Barbosa. Como foi o processo dessa escolha?


[Marcus:] Bom, primeiro a gente percebeu que os textos tinham níveis de emoção e que a gente precisava de um ator pra isso. Não é como ler textos mais clássicos, mas ler as poesias do Torquato, ler as cartas dele, as colunas do jornal que ele escrevia de uma forma muito incisiva pra quem tá lendo... Precisava desses vários níveis de emoção então precisava de uma ator que entendesse isso.  Precisávamos também de um ator jovem, porque ele morreu com 28 anos.

Embora a gente primeiro pense numa voz que seja bacana pra ler uma poesia, a gente partiu do princípio que essa voz tinha que ser jovem, aí veio a ideia do Jesuíta, que é um ator brilhante, que todo mundo já viu em vários filmes fazendo coisas muito diferentes e muito bem sempre; muito dedicado naquilo que faz e que a gente pode ver no estúdio, porque ele se jogou completamente, não poupou esforços pra fazer e refazer, pra entender a intenção... "Será que era por aqui que ele queria dizer?" e a gente foi testando com ele junto e chegou num resultado que pra gente foi exatamente o Torquato que a gente gostaria de ter.

 

#4 Como vocês desenvolveram o estilo visual do filme?


[Eduardo:] Essa estética visual foi resultado de um processo. Na verdade a gente filmou o filme de uma forma tradicional. As entrevistas estão todas filmadas com a câmera, bonito, sentadinho, uma luz linda...

[Marcus:] O diretor de fotografia quer matar a gente até hoje.

[Eduardo:] [risadas] Ele é muito amigo nosso... Mas ao longo da montagem a gente viu que o Torquato tava precisando aparecer mais. Ele tinha que ser mais protagonista e a gente nunca tem a imagem e o som dele junto. Não tem um filme dele dando uma entrevista... Já que ele é assim, um pouco fragmentado, a gente também quis tratar os coadjuvantes de forma igual. Então a gente tirou a imagem deles assim como o Torquato também não tem o som colado com a própria imagem. 

Nisso criou-se um desafio, né... "O que a gente faz agora com esse filme que tá preto?"; a gente tinha que recriar. Aí a gente partiu pra trazer os filmes, porque ele era muito cinéfilo também, desde de o Rio ele já frequentava e tinha essa vivência muito ligada a cinema, é uma coisa que atravessa a vida dele inteira, então a gente traz esse universo do cinema, tudo que ele gosta. A gente recria a vida dele a partir de uma imaginação cinematográfica. 

 



 

#5 Pra vocês, qual a importância que as músicas trazem para o enredo?


[Marcus:]  Fundamental desde o início. No argumento que eu criei eu já dividia em "capítulos" a partir de títulos de música dele ou de trechos de letras que definiam. A obra dele é muito biográfica, então a gente já sabia que a música ia ser personagem principal do filme. A música ajuda a gente a contar a história dele como dificilmente a gente conseguiria contar de outro personagem, ou outro compositor. O Torquato tem até coisas mais cifradas, mas ele é objetivo no que ele pensa: "Mamãe não chore a vida é assim mesmo eu vou embora." Pronto! Ele já contou a infância, a ida pro Rio... e assim ele vai fazendo da vida a obra dele, então a gente sempre soube que a música ia ser fundamental pra ajudar a gente a contar essa história.

 

#6 Como foi que vocês trataram as horas finais do Torquato?


[Eduardo:] A nossa escolha foi tratar da morte o tempo inteiro. A gente percebeu que esse era o assunto mais importante da vida dele. A morte no filme não é o evento de morrer, a morte é a vida dele. Então ele tá sempre em diálogo constante com essa ideia de morrer e com vários tipos de morte. A palavra morte acompanha a produção dele desde o princípio, tem um poema da juventude que ele narra o nascimento dele que ele fala "minha mãe quase que morre, quase que eu morro". Ele já nasceu quase morrendo e por isso que a gente dá o nome do filme de Todas as Horas do Fim, que é um verso do poema Cogito, que é isso, ele vive tranquilamente todas as horas do fim, a vida dele é a morte dele ao mesmo tempo.

Essa morte não é necessariamente como se a vida fosse um polo positivo e a morte um polo negativo, não estão separadas pra ele. Ele consegue junta vida-e-morte numa coisa só e fazer disso a força da sua poesia, da sua vida. Mas a coisa da morte é um jogo, né... Ele joga com isso e não é um jogo só poético. É um jogo perigoso que pendeu mais para um lado fatal. Mas o suicídio, o ato de morrer, físico, não é o mais importante. O mais importante é a presença da morte na vida e a gente aborda isso no filme, sem pesar o fato do suicídio, como foi... não! Isso não é importante pra gente.

 

#7 Depois de ter visto o filme pronto, qual a sensação que fica?


[Marcus:] Dever cumprido! Depois de ter feito e depois das pessoas terem visto, né... Essa sensação que as pessoas tem de redescoberta. O que Xico Sá falou que o Brasil precisa conhecer o Torquato, resumiu o meu pensamento ao fazer o filme: O Brasil precisa conhecer o Torquato, tem muito pra conhecer e não conhece. Então essa sensação de dever cumprido é isso. Além de qualquer mérito que o filme tenha, porque trazer o Torquato já seria importante. Mas essa percepção das pessoas e ver que isso tá funcionando, das pessoas se impactarem simplesmente pela obra dele, que era a primeira coisa que me interessava lá atrás, já é uma grande realização.

[Eduardo:] A sensação que eu tenho visto nos espectadores que saem da sessão e é uma sensação que eu acho muito interessante é que o filme apesar de estar tratando desse assunto de morte, de um personagem que se matou, as pessoas não saem tristes. É um filme que traz uma melancolia, mas as pessoas saem enérgicas.

[Marcus:] Contar essa história que tem um drama que ele mesmo definiu como tranquilo, tinha esse desafio de conseguir um tom que as pessoas não saíssem pra baixo... E a gente tem percebido que tem esse resultado que já é outra realização. São algumas realizações que a gente vai tendo ao longo do processo e agora estreando no cinema a gente vai ter mais ainda, mais gente podendo dar esse feedback pra gente.

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Torquato Neto - Todas As Horas do Fim 

 

Direção e roteiro: Eduardo Ades e Marcus Fernando
Argumento: Marcus Fernando
Com: Jesuíta Barbosa (como Torquato Neto, voz)
Produzido por: Daniela Santos, Eduardo Ades, João Felipe Freitas
Produção executiva: Daniela Santos
Montagem: João Felipe Freitas
Pesquisa iconográfica: Remier Lion, Marcus Fernando, João Felipe Freitas, Eduardo Ades
Edição de som: Thiago Sobral
Mixagem: Jesse Marmo

 

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