Zama provoca agonia.


Começo assim esta que não é bem uma crítica e sim uma percepção do novo filme de Lucrecia Martel. A diretora argentina lança em 2018 o seu último filme após um hiato de 10 anos desde o lançamento de "Mulher Sem Cabeça" em 2008.  Baseado no livro de Antonio de Benedetto, o filme conta a história de Diego de Zama, interpretado por Daniel Giménez Cacho. 

Zama, um oficial da Coroa Espanhola nascido na América do Sul, aguarda uma carta do Rei autorizando-o a se transferir da cidade em que vive estagnado para um lugar melhor. Para garantir a transferência, Zama se ver forçado a aceitar todas as ordens e tarefas que são passadas por consecutivos governantes ao longo dos anos. Quando percebe que a tal carta não vai chegar, ele decide se unir a um grupo de soldados em busca de um perigoso bandido.

Essa trajetória não é fácil de assistir. Não pensem que irão ver um filme de aventura no período colonial, porque não vão. O ritmo do filme é bem lento e foi isso que me deu agonia na espera da tal carta. O que eu achei interessante [e ao mesmo tempo bizarro] foi como a fotografia e o desenho de som me proporcionou uma experiência sensorial, estranhando-encantando todo o ambiente fantasioso que a diretora propõe à trama.

A beleza do estranho


Nele, tudo é aparentemente sujo, cercado de insetos, quente e com um péssimo odor, essa atmosfera é preenchida com a expectativa de Zama em sair desse lugar. Entra e sai governador e nada muda e é assim que o filme vai não-acontecendo.  Apesar do ambiente lúdico criado por Martel, os personagens trazem facetas que, pra mim, são reais, como escravos negros e índios sem espaço de fala, governantes que só enrolam e que se sentem ameaçados pela informação, etc, mas Diego... hum...

Não sei! Embora eu sinta sua dor, não consegui criar uma conexão que me permitisse torcer por ele. Confesso que torci mais pelo antagonista e o seu segredo, que serão apresentados quase que no final do filme. Interpretado pelo brilhante e brasileríssimo, Matheus Nachtergaele, a chegada de Vicuña Porto, vilão procurado pela corte, muda um pouco, o tom do filme, deixando-o até mais claro, com paisagens de saltar os olhos.

O que me fez criar uma expectativa [quase tão inquietante que a de Zama] de que alguma coisa finalmente iria acontecer com Zama. Spoiler ou não, isso não acontece. Na verdade, é só mais uma curva dessa eterna espiral que o personagem luta.

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Se eu recomendo? Sim. Na verdade, vou vê-lo mais uma vez, não sei se consegui captar tudo o que o filme passa. Ou se é isso mesmo. Vale um ingresso, vale contemplar o braço brasileiro que tem no filme, não só com a participação do Matheus, mas da produtora Vânia Catani também. O filme tem co-produções de vários países e vemos participação de nomes como Pedro e Agustín Almodóvar na produção.

O cinema latino-americano ta aí, gente. Merece ser visto. O filme já estreou e você pode vê-lo na Cinesala, Cine Reserva Cultural Paulista e/ou no Espaço Itaú de Cinema.