Um filme de cinéfilo para cinéfilo


Demorei mais que o comum para escrever sobre "Paris 8". Deve ser porque o novo filme de Jean Paul Civeyrac me toca de uma maneira singular e é com toda essa particularidade que eu falo sobre ele. A paixão pelo cinema e pela forma com que a arte vira uma gesto de manifestação foi o que mais brilhou meus olhos. No que, pra mim, parecia uma conversa de 2h em frente ao espelho, "Paris 8" refletiu momentos de identificação, poesia e reflexão.

O longa conta história de Etienne (Andranic Manet), um jovem que se muda para Paris para estudar cinema na Universidade Paris 8. Logo no começo vemos o personagem tendo que lidar com a distância da família e da namorada. Chegando lá, ele conhece Mathias (Corentin Fila) e Jean-Noël (Gonzague Van Bervesselès), com quem se identifica. Conforme passam os anos eles têm que enfrentar os desafios do amor e da amizade, além das batalhas artísticas que cada uma vai encarar.

Contado inteiramente em preto e branco, o filme não só levanta aspectos nostálgicos do cinema, como também o faz. Frame a frame, vamos construindo uma atmosfera que nos remete às primeiras produções europeias. E o resultado disso? Uma sensação gratificante, sutil e sofisticada, embalada em diálogos sobre cinema, sonhos, vivências e, principalmente, amadurecimento.


A arte imitando a vida


"Paris 8" me faz refletir de várias formas. E se você também é estudante, ou meramente apaixonado por cinema, também vai se sentir instigado. Auto-crítica, provações e aprovações, pessoas indo e vindo pela vida como num filme. Cada momento, um ponto de virada. Cada desafio, um conflito. Cada crise, um plot. É nessa divertida análise que o filme é construído... Etienne é tão humano que me deixa com raiva do personagem e, até de mim, por pensar "nossa, muito eu".

Mas aviso, aos acostumados com produções hollywoodianas, o filme pode gerar um desconforto e cansaço em certo momento. Sem muita pressa, ele até se estende no segundo ato. Mas, dada a minha identificação, não me incomodou em nada. Toda a construção é singela, às vezes parada, mas agradável. Tal característica se estende também aos atores. A simplicidade de trabalhar com atores não tão conhecidos permitiu que Civeyrac pintasse um tela em branco.

"Desprovidos de uma imagem, são incrivelmente receptivos e modestos. Eles exibem inocência e lucidez ao mesmo tempo que, geralmente, os envolve com muita força. Acredito que ter isso incorporado ao filme por uma nova geração de atores franceses ajudou a estabelecer credibilidade e tocar em questões e emoções bastante contemporâneas" - comenta o diretor.



E sim, são contemporâneas mesmo. Poderia ficar horas citando todas as nuances com as quais eu destaco. Mas prefiro evitar spoiler ou conversas não fechadas e deixá-los conferir por si só. O filme estreia ainda essa semana, no dia 17 de maio. Exibido em Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Jaboatão dos Guararapes, João Pessoa, Niterói, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Santos, São Paulo, Vitória.

Mas até lá, veja essa cena onde se discute deliciosamente sobre o cinema italiano:

 

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[nota extra-pessoal]

Quem me conhece sabe que mesmo depois de formada, ainda tenho muito contato com o meio acadêmico. Seja para ministrar oficinas, se juntar em projetos ou até para tomar um café na simpática e aconchegante "sala da Leila". Essas aparições me fazem voltar aos tempos de faculdade e, confesso, dá uma saudade. Uma das coisas que eu mais dialogo com os alunos que ali estão é: ser realizador.

É muito difícil mensurar o espaço da nossa arte hoje. Os caminhos são tortuosos, a disputa de egos atrapalha, o auto-boicote, a falta de tempo e, a maioria das vezes, de grana, parecem ser gigantescos. Mas isso, nunca deve ser motivo de apagar o fogo que há dentro de nós em querer contar uma história e manifestar ali tudo que está inquieto.

Mesmo depois de retornar e, bem mais amadurecida em relação à certas coisas, o que fica em mim é que fazer arte é viver em eterna mutação, é se reconhecer e desconhecer várias vezes, é ser inconstante e, até obstinado. Em tempos de tamanha insanidade, fazer e fomentar a arte é um ato político.

Vejam esse filme.


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Sinopse


Etienne vai a Paris para estudar cinema na Sorbonne. Ele conhece Mathias e Jean-Noël, que compartilham sua paixão por filmes. Mas, conforme passam o ano estudando, precisarão enfrentar os desafios da amizade e do amor, assim como escolher suas batalhas artísticas.


Ficha Técnica


Paris 8 (A Paris Education)


Direção: Jean-Paul Civeyrac
Roteiro: Jean-Paul Civeyrac
Elenco: Andranic Manet, Diane Rouxel, Jenna Thiam
Gênero: Drama
País: França
Ano: 2018
Duração: 137 min
Classificação: a definir