Em Nanette, Hannah Gadsby subverte o gênero Stand-up e consegue fazer a plateia rir, refletir e chorar.


Tenho que ser sincero e admitir que nunca havia dado chance para um especial de stand-up da Netflix. Não por falta de diversidade, afinal temos desde Chris Rock até Felipe Neto. A verdade é que nenhum dos títulos haviam me chamado atenção, nenhum deles tinha algum atrativo que me fizesse querer passar mais de 60 minutos o assistindo. Sou um fã do gênero, às vezes passo horas assistindo comediantes brasileiros e seus textos super imersivos na TV. E talvez esse fosse o ponto, os especiais da Netflix não tinham esse apelo emocional que me coloquem naquela situação. Porém, em Nanette, a ótima humorista Hannah Gadsby conseguiu me atrair pela simpatia e pelos temas delicados que permeiam toda uma geração.

Hannah não é tão famosa, seu papel de maior destaque havia sido na série de comédia 'Please like me' (também disponível na Netflix). Mas, ao colocar seus pés no palco, ela mostra que é uma gigante quando se trata de ironizar tristes faces da sociedade. Em determinado momento ela diz: "Todos vocês sabem que não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu". Essa talvez seja a frase que mostre o tom do show de Hannah Gadsby. Uma mulher homossexual, que nasceu num lugar homofóbico e que colhe os frutos de sua criação até hoje.


Piadas feitas para serem como flechas.


Ao tratar de sua sexualidade, Hannah faz piada com os inconvenientes que acontecem em sua vida. Seja as pessoas que ficam desconcertadas ao confundi-la com um homem, ou as pessoas que a direcionam um olhar preconceituoso. Porém não para por aí, ela também põe à prova todo o machismo que teve que enfrentar durante toda sua vida, além de dar cutucadas em atitudes masculinas. Gadsby faz um stand-up com críticas direcionadas à um público, e nunca se cansa de reafirmar isso com um sarcasmo único.

Há inúmeros momentos de silêncio constrangedor que evidenciam mais e mais o quanto Hannah vai a fundo em suas críticas. Podemos relacionar esse show com o movimento "me too", que tá fazendo um barulho enorme em Hollywood. Diversos nomes são citados e até seu próprio humor é posto à prova. Em determinado momento do especial, Hannah diz que gostaria de largar a comédia. Ela tem um certo cansaço de tudo o que faz, é como se já tivesse lutado muito e só quisesse que sua voz fosse escutada. E enquanto isso, temos diversas celebridades masculinas que são acusados de crimes quase imperdoáveis e mesmo assim são colocados em posições de poder.


Emocionante e engraçado.


Hannah conseguiu fazer um show que ao mesmo tempo que é engraçado, também emociona. Porém, emociona por motivos que nos fazem pensar sobre suas indagações durantes horas. Os paralelos que a comediante traça com seus conhecimentos em história da arte são fenomenais. No fim, ela consegue nos entregar um show com várias emoções de mesma intensidade.

Se você assistir esse especial da Netflix, certamente vai lembrar de Hannah Gadsby durante muito tempo. Em uma época que há tanto ódio, é sempre bom ouvir uma voz que nos faça abrir os olhos para os grandes problemas que passam despercebidos. Isso faz Nanette ser uma das obras mais tocantes que vi esse ano. Seu texto é maravilhoso e Hannah, além de ser uma comediante talentosíssima, também é uma mulher fenomenal. Uma mulher que passou por diversas dificuldades na vida, e ainda assim consegue rir delas. Ou melhor, consegue fazer as outras pessoas também darem gostosas gargalhadas.

"Sabem por que temos girassóis? Não é porque Vincent van Gogh sofreu. É porque Vincent tinha um irmão que o amava. Durante toda sua dor, ele tinha alguém que o ligava ao mundo. Esse é o foco da história que precisamos. Conexão."

Hannah Gadsby: Nannete está disponível na Netflix.