Em 'Ilha dos Cachorros', Wes Anderson cria uma história tocante, engraçada e metafórica.




Em 2016, a Disney lançou o ótimo 'Zootopia', um filme que se passava num mundo em que os animais vivem em sociedade. O interessante era o jeito que a história era trabalhada ao redor de várias metáforas que serviam como uma crítica a diversas atitudes humanas. O preconceito era algo bastante discutido. Existiam diálogos dentro daquela animação serviriam muito bem para a nossa sociedade, por exemplo. Já nesse ano, Wes Anderson discute diversos problemas socioeconômicos em 'Ilha dos Cachorros', seu mais novo filme que teve a honra de abrir o Festival de Berlin.

Sou grande fã do Wes, o filme em que ele me fisgou foi 'Moonrise Kingdom'. Logo percebi seu jeito único de filmagem e de dirigir atores, além de ter uma ótima direção de arte envolvida em seus projetos. Em 'Ilha dos cachorros', um vírus infecta todos os cães da cidade de Megazaki. Depois disso, os animais são banidos pelo prefeito para uma ilha que servia como uma espécie de lixão. No meio de todos esses cachorros está Spots, o animal de estimação de Atari, um garoto que não medirá esforços para salvar seu amigo.

Um plano de fundo asiático.




É interessante como Wes reverencia a cultura japonesa. A maioria dos diálogos humanos são em japonês e traduzidos por algum personagem do filme. E essa reverência serve quase como uma carta de amor ao cinema japonês, pelo qual Wes Anderson deve possuir muito carinho.

O bom humor é presente durante todos os 100 minutos do longa, servindo quase como uma refúgio daquele ambiente selvagem. No início do filme, por exemplo, há uma cena em que vários cães brigam por alimento estragado. Se não fosse o humor no roteiro e na montagem, talvez essa cena fosse bem triste. O humor também se estende pelo nome dos personagens e em atitudes tomada por eles. Como a cadela chamada Oráculo, que sempre sabe tudo o que vai acontecer simplesmente porque assiste TV.

Os problemas sociais e econômicos que são abordados mostram uma face mais decadente da sociedade. O ambiente é hostil, e mesmo estando na parte que foi banida os cachorros convivem em gangues e subjugam outros da mesma espécie. Além disso, temos os personagens que são extremamente carismáticos. Cada cão tem uma personalidade bem estabelecida. Porém, apenas o protagonista tem profundidade e a cada minuto que passa, mais apegados à ele ficamos.

O elenco de dublagem é Show, tendo desde astros asiáticos, até estrelas como Bryan Cranston, Scarlet Johansson, Greta Gerwig, Bill Murray e Jeff Goldblum. Além disso, temos a direção que emula um trabalho de uma pessoa com TOC, e nessa parte Wes realmente arrasa. 'Ilha dos Cachorros' se torna tão especial por trabalhar bem o Stop-Motion. E com o modo que Anderson filma, o longa ganha um aspecto único.

O filme dos cachorros.




Claro que os méritos são também da equipe de design que criou cenários espetaculares. A aparência dos cães também chama bastante atenção, pois cada um tem sua particularidade. E conforme a trama revela mais personagens, nós vemos também essa evolução em seus designs. Porém, o que mais me chamou atenção foi a trilha maravilhosa de Alexandre Desplat. O mais recente ganhador do Oscar mistura música asiática com um teor energético e aventureiro que permeia quase todas as obras de Wes Anderson.

Porém, se tem algo que incomoda é o núcleo humano do filme. 'Ilha dos cachorros' se mantém na linha quando coloca os cães em tela. Mas ao desenvolver as subtramas que se passam na cidade, o filme perde um pouco de seu charme. Claro que a ideia central é bem trabalhada, mas os personagens que a guiam não são nada chamativos e acabam sendo esquecíveis. Diferente do núcleo canino.

'Ilha dos Cachorros' é mais uma obra maravilhosa de Wes Anderson. Talvez eu ainda prefira o texto de 'O fantástico Senhor Raposo', mas em termos de direção e uso do Stop Motion o filme dos cães sai na frente. É um filme tocante, engraçado e bem metafórico. Talvez um grande concorrente nas premiações que estão por vir. Pena que ele estreou no mesmo ano que o furacão 'Os incríveis 2'. Aliás, os dois longas, além de serem divertidos, possuem outra coisa em comum: Maturidade para discutir problemas sociais. E de um modo pouco visto em animações.

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