'Tau', novo longa da Netflix, recicla ideias relacionadas à inteligência artificial aplicando-as num suspense com pouca criatividade.


Com o avanço da tecnologia, é notável como o cinema tenta mostrar diferentes visões daquela ideia que está sendo desenvolvida no mundo real. James Cameron, por exemplo, viu a crescente evolução dos computadores e representou, de forma pessimista, um possível futuro em 'Exterminador do Futuro'. Porém, algo que está em pauta é a Inteligência artificial. Temos um 'Blade Runner' preocupado em filosofar sobre a vida. Temos um 'Ex-machina' para nos fazer refletir até onde podemos ir na criação desses seres. E também temos um 'Ela' que é bem mais "pé no chão" e nos faz pensar sobre nossa relação com essas I.A.

E com a popularização de assistentes pessoais, era questão de tempo até surgir um filme que falasse sobre isso. É claro que 'Tau' não foi o primeiro a abordar esse assunto. Existe até um episódio de 'Os Simpsons' que tem esse assunto como tema, e ele não é tão recente. Porém, essa produção da Netflix consegue ainda assim inserir novos conceitos, mesmo que sejam apoiados em ideias já usadas de maneira mais profunda anteriormente. 'Tau' propõe uma discussão à assuntos presentes nos longas citados no parágrafo anterior. Mas desta vez usando como plano de fundo uma trama de sequestro.


O assistente virtual do mal.


Uma jovem (Maika Monroe, de 'Corrente do mal') e sequestrada por um milionário (Ed Skrein, de 'Deadpool') que a transforma em cobaia para aprimorar um sistema de I.A. E sua única chance de fuga é vencer esse sistema. O filme tem uma premissa bem simples, e que poderia ser bem aproveitada, mas acaba se tornando um longa que não aproveita suas boas ideias. Federico D'Alessandro é quem está na direção, ele é inexperiente, mas seu conhecimento como artista visual fica evidenciado em 'Tau'. Federico já trabalhou desenhando storyboards e artes conceituais para diversos filmes da Marvel, por exemplo. E sua aplicação nesse filme se destaca desde o design da I.A. até algumas cenas carregadas de CGI que possuem um acabamento bem bonito.

Ed Skrein mostra mais uma vez que é um ator limitado, resumindo sua atuação apenas à cara de bravo/sério. Porém, Maika Monroe mostra que tem talento, e mesmo com uma personagem relativamente rasa, ela consegue nos conquistar pelo carisma. E para completar o pequeno elenco, temos Gary Oldman dublando 'Tau', e mesmo sendo uma I.A. ele é capaz de nos passar emoção em sua voz.


Perdido em sua própria programação.


Em seu segundo ato, 'Tau' propõe uma reflexão sobre o que é ser humano, sobre existência e sobre nossas lembranças. Porém, nada disso é levado muito a frente. Logo depois de bons diálogos o longa volta à sua ideia inicial de ser um suspense que preza em mostrar o quão ruim seu vilão pode ser. Mas é justamente nesse ponto que o filme mais peca. Pois seu vilão, além de ter a profundidade de um pires, não passa nenhuma sensação de perigo. Aliás, tem horas que ele nem parece ser esse tal gênio que revolucionou a industria da tecnologia.

Quando vai se aproximando de seu final, o roteiro começa a cair para o cliché e criar diversas conveniências. Fazendo com que muita coisa que foi criada fosse apagada de sua "programação inicial". Um fato incômodo é o filme abrir um leque de possibilidades e ir para o caminho mais sem graça. 'Tau' tinha tudo pra ser um thriller capaz de deixar diversas reflexões, e ter uma trama frenética. Mas, acaba se tornando um longa perdido e sem muito propósito.


'Tau' é mais um sci-fi raso e pouco convincente que a Netflix nos entrega, nem sua estética deslumbrante esconde suas falhas. Sua superficialidade e timidez ao confrontar temas interessantes acaba sendo decepcionante ao fim da sessão. E talvez uma nova ideia de sci-fi possa nascer justamente desse poder que a gigante do streaming tem em nos manter atentos à qualquer nova estréia. Alô Black Mirror, confio em você pra essa missão.

'Tau' está disponível na Netflix.