'A Freira' é um fruto ruim da franquia 'Invocação do mal'. Infelizmente.


Confesso que amo os filmes principais da franquia 'Invocação do mal'. James Wan tem um jeito único de conduzir o terror e recorre pouquíssimas vezes para o jump-scare quando quer causar medo. Seu jeito de avançar a trama usando o elemento humano como base também é muito bem feito. Nos dois filmes o público se importa e sente medo junto com a família mostrada, pena que o maior trunfo desses filmes não é seguido em seus spin-offs. Afinal, temos dois 'Annabelle's' que não conquistaram o público, e agora temos 'A Freira', que mesmo sendo tirada de um ótimo longa, não é aproveitada nessa trama superficial e desinteressante.

'A Freira' se passa na Romênia e seus acontecimentos seguem as consequências do suicídio de uma freira local. Após esse ato, uma Noviça e um Padre com um trauma do passado vão até o convento e se envolvem numa guerra que pode lhe custar a própria alma. Essa é a trama principal do filme, e podemos dizer que não há expansão alguma em nenhum momento. E unido à isso também não há nenhuma boa adição à mitologia da franquia.

Os personagens e seus demônios.




Uma das coisas que mais reparei durante os 90 minutos de filme foi a semelhança entre Taissa e Vera Farmiga. Taissa interpreta Irene, uma noviça que não concorda muito em como a palavra de Deus é interpretada. Vera é a interprete de Lorreine Warren nos dois filmes 'Invocação do mal', mesmo as duas sendo irmãs, a semelhança até assusta. Isso até poderia ser usado para fazer uma ligação entre os dois longas, mas acabou sendo apenas uma coincidência de casting.

Aliás, Taissa é o único ponto bom no elenco. Ela é bem aproveitada quando deve e consegue ser carismática o suficiente para nos conectarmos com sua personagem. O resto do elenco não tem a mesma sorte, e não por falta de talento, mas sim por problemas de roteiro. Padre Burke é pouquíssimo explorado, seu passado o assombra por todo o filme, mas acaba sem conclusão alguma. Sequer temos um arco para o personagem, é como se o filme apenas o levasse adiante.

Os outros personagens são apenas coadjuvantes sem muito tempo em tela. Até o personagem de Jonas Bloquet acaba sumindo numa certa parte do filme, e olha que estava sendo um ótimo alívio cômico na trama. Se nos longas originais os personagens eram a parte principal, aqui temos personagens sem nenhum carisma e desenvolvimento. Uma pena.

A ameaça.




Desde o primeiro minuto de filme somos apresentados à ameaça principal: A Freira. O personagem que tanto assustou e marcou 'Invocação do mal 2' fica apenas na promessa dos primeiros minutos. Temos aqui um vilão que ficou marcante, mas mesmo sendo marcante deveria ter um maior tepo de tela pra mostrar suas origens, objetivo e motivação. Sua presença por si só não convence e se transforma uma espécie de vilão genérico que apenas aparece para dar sustos.

'A Freira' se desenvolve de um jeito empolgante até certo ponto, mas acaba se perdendo e limitando seu próprio potencial. Os jump-scares começam a ficar repetitivos e algumas cenas acontecem apenas para acontecer, não contendo nenhuma adição para a história.

Até quando o filme quer falar sobre o passado e criar plot-twists acaba falhando. Tudo o que é criado não serve nem para a própria mitologia, e acaba com nenhuma explicação para mistérios que criou. Posso até dizer que o roteirista tinha realmente uma boa ideia para o filme, mas acabou se perdendo e escrevendo apenas mais um terror cliché.

Fico até triste, pois 'A Freira' tem bons momentos e alguns pontos que criam certas perguntas na trama. Existem ali dentro bons planos e uma fotografia que ajuda no terror. Há também cenas criativas, porém, nenhuma delas gera nada de novo e acaba sendo até decepcionante. Afinal, no fim ele sempre volta a apelar para o jump-scare barato e sem graça.

Infelizmente, o terror não funciona.




Podemos dizer que julgando pelo material base e seus primeiros minutos, 'A Freira' era um filme promissor. Tinha tudo pra dar certo, principalmente se seguisse a mesma linha que 'Invocação do mal'. O fator humano seria algo que acrescentaria bons momentos na trama. Poderíamos ter uma noviça questionando sua fé e seus princípios, e o Padre interligando os acontecimentos que marcaram seu passado com o presente. Porém, nada disso é explorado e ao fim da sessão a sensação é de "poxa, infelizmente, o terror não funcionou".

O longa tem sim uma boa produção. O convento onde a maior parte do filme se passa é bem aproveitado e o diretor tem algumas boas sacadas. O problema mesmo se encontra no roteiro, que diferente da direção, não consegue aproveitar tudo o que está ali, em sua frente.

'A Freira' entra pro hall dos filmes de terror pouco criativos e cliché. Ele se perde em sua trama e nada que é inserido funciona. Taissa Farmiga talvez seja a melhor coisa do filme, aliás, existem ótimas cenas em que ela é protagonista. Tirando isso, tudo é falho e o que existia de tão promissor acabou não sendo bem utilizado. Temos aqui mais um fruto ruim da franquia 'Invocação do mal'. E pra ser sincero, esse filme do Homem-torto que está em pré-produção tá com cara de que vai seguir esse mesmo caminho.

Uma pena, pois os dois filmes protagonizados pelo casal Warren estão no páreo dos melhores longas do gênero produzidos nos últimos anos. Será que até esse universo expandido a Warner vai estragar?