Quem matou Marvin Bijou?


Não! Esse não é um filme de suspense/ mistério. O novo longa de Anne Fontaine (Agnus Dei, Coco Antes de Chanel) é um filme sobre descobertas, amadurecimento e, sobretudo, reinvenção. No filme conhecemos Marvin, mais do que isso, estamos com ele o tempo inteiro. Distribuído numa estrutura nada cronológica e naturalista, vemos Marvin menino, de rosto angelical e expressivamente feminino, sobrevivendo a uma série de eventos violentos e de pura intolerância. Mas também vemos Marvin homem, revisitando e transcrevendo o seu passado e fazendo dele ponte para um novo (e desconhecido) futuro.

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A difícil trajetória de Marvin


Tendo essa premissa, eu gosto de analisar "Marvin" percebendo os círculos sociais em que ele estava inserido e a forma que ele transformou essas experiências em arte e resistência. Primeiro, sua família. A família Bijou era pobre, ignorante e intolerante, mas com muita genialidade Anne e o corroteirista Pierre Trividic apontaram traços de humanidade. Mesmo com todo o discurso de ódio, desrespeito, displicência com eles mesmo, são pessoas. Pessoas que são reflexo de sua subcultura.

O pai, mesmo que tirano cuspindo frases como "gay é doença" consegue demonstrar, timidamente, que não totalmente é ruim. Ele nunca bateu em seus filhos ou esposa e mesmo repudiando o teatro ou a homossexualidade deixa uma porta aberta para esse diálogo. A mãe, demonstra cansaço, frustração, mas protege e (às vezes) se diverte. Conversa com seus filhos. A família é aquilo que uma família é em qualquer contexto, estranha, porém afetuosa. Então não, eles não mataram Marvin.

A escola pode ser terrível, geralmente é. No caso de Marvin, toda a sua insegurança em relação ao seu corpo e a sua delicadeza fez com que ele virasse vítima de violência. Gosto do termo que Anne usa, "um objeto de tratamento sádico para os seus colegas". O filme valoriza muito o silêncio e nisso a gente consegue sentir o desconforto do personagem na maioria dos eventos.

Na escola o "ser diferente" é motivo de bullying, de abuso e de traumas. Mas é nessa mesma escola que Marvin encontra a porta aberta para um novo futuro. Ao ser "encontrado" por Madeleine Clement, a diretora do ensino médio, Marvin é apresentado ao teatro, e mesmo contra todas as probabilidades, ele enxerga um novo caminho.


A verdadeira certidão de nascimento


No teatro que Marvin começa a se libertar. Na verdade, tudo aquilo que estava dentro dele (e que ele ainda não conhecia), começava a dar sinais. Esse chamado o acompanhou pela sua vida adulta onde encontra mais aliados que fazem enxergar suas vivências com outros olhos. É esse amadurecimento, essas batidas de cabeça que fazem com que nos apaixonemos por ele e por sua história. O menino que era negligenciado de várias formas, vence o exílio, vence a rejeição, a insegurança e faz do seu corpo e de sua existência arte.

A fotografia dirigida por Yves Angelo, foi sutilmente estilizada. Fez com que a ida e volta no tempo fosse algo natural. Ele nos coloca em total contato com o personagem, o tempo todo, até dentro de sua mente, como na cena em que o imaginário dele é representado através de uma projeção na parede. Foram algumas alegorias poéticas que presentearam o longa com a sensação de que Marvin nunca ficasse estagnado. Apesar de se estender do meio pro final, o espectador cria empatia por todos os muitos personagens ao longo do filme.

E respondendo a minha pergunta no início do texto: Marvin se mata. E não no sentido literal, mas mata tudo o que ele sofreu e usa dessa bagagem para renascer no teatro como Martin Clement.


"Marvin": Hoje nos cinemas!



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MARVIN
França | 2017 | 115 min. | Drama

Título Original: Marvin ou La Belle Éducation
Direção: Anne Fontaine
Roteiro: Anne Fontaine, Pierre Trividic
Elenco: Finnegan Oldfield, Grégory Gadebois, Vincent Macaigne, Catherine Salée, Jules Porier, Catherine Mouchet, Charles Berling, Isabelle Huppert
Distribuição: A2 Filmes | Mares Filmes

Sinopse: Martin Clement, nascido Marvin Bijou, escapou. Ele escapou de uma pequena aldeia no campo. Ele escapou de sua família, da tirania de seu pai e da renúncia de sua mãe. Ele escapou da intolerância, da rejeição e do bullying que sofreu por ser apontado como `diferente´. Contra todas as probabilidades, ele encontrou aliados. Primeiro, Madeleine Clement, a diretora do ensino médio que o apresentou ao teatro e cujo nome ele adotará mais tarde como símbolo de sua salvação. Em seguida, Abel Pinto, seu mentor e modelo, que irá encorajá-lo a contar sua história no palco. Finalmente, Isabelle Huppert irá ajudá-lo a produzir seu show e trazê-lo para a vida. Marvin/Martin arriscará tudo para criar esse show que representa muito mais do que sucesso: é o caminho para a reinvenção.