Soldado Estrangeiro | Documentário impressiona pelo ritmo coeso e sutil - CRITICA


Existe no Brasil um mundo paralelo de jovens que almejam servir nas Forças Armadas estrangeiras. O número de integrantes desse grupo é maior do que se pensa e está muito bem estruturado graças a homens que lograram êxito na tarefa e estão em outros países, como por aqueles que não chegaram a conseguir adentrar as fileiras ou os que atingiram o objetivo, mas desistiram posteriormente.

Muitos desses rapazes sonham em ser militares ou já foram e não conseguiram seguir carreira ou crêem que o militarismo do exterior corresponderá melhor às suas expectativas. E é envolto nesta realidade que habita o documentário Soldado Estrangeiro, dirigido por José Joffily e Pedro Rossi.


OS PROTAGONISTAS

Primeiro acompanhamos a história de um rapaz (Bruno Silva) morador da periferia do Rio de Janeiro e suas aventuras para entrar na Legião Estrangeira francesa para realizar o sonho de ser militar e conseguir dar uma vida melhor para sua família. O perigo de confrontos reais não o amedronta já que ele convive diariamente com o terror das facções criminosas de sua cidade.

A segunda história é de um brasileiro (Mario) no exército de Israel e sua rotina em missões militares, convívio com os colegas de outras nacionalidades e sua vida particular.

O terceiro protagonista é um carioca (Felipe de Almeida) que aos dezessete anos ingressou nos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e agora tem que lidar com os traumas de um veterano de guerra, enquanto tenta se erguer para tocar a vida em frente no convívio civil.


POUCO ENVOLVIMENTO COM A PRODUÇÃO

Soldado Estrangeiro é dividido em três partes, numa lógica de “começo/meio/fim” de um homem que quer servir as Forças Armadas de outro país, outro que serve e por último um que serviu. Intercala em diferentes países unidos por contos de brasileiros.

Os diretores não se intrometem diretamente quase que no documentário inteiro e quando o fazem, a falta de retorno que recebem, contribui paradoxalmente bem. Como quando perguntam a Mario se ele considera ter inimigos, e sua resposta é apenas que ele não tem autorização para tocar neste assunto.

Soldado Estrangeiro | Documentário impressiona pelo ritmo coeso e sutil - CRITICA



Poucas vezes os protagonistas conversam com a equipe do documentário e quando ocorre é sempre com naturalidade. Um bom documentário conta o que quer contar sem imposição, pois seria contra a própria natureza de documentar, por mais tentador que seja para dramatizar a situação.

Sejam as câmeras fixas no centro de recrutamento francês, na caótica do capacete de Mário ou na imagem móvel lenta que acompanha o ex-Fuzileiro americano, solitário, pelas ruas cheias de Nova York, tudo se encaixa bem com a proposta, que é o realismo. Diálogos ganham força neste filme, onde conhecemos melhor a psique dos três homens seja com seus pares ou familiares. A dor da despedida na primeira história, o estresse variando com a leveza entre os militares israelenses e a mãe que luta para ajudar o filho a se reerguer no último ato.


UM PEQUENO ERRO ...

Porém, em um documentário onde sutileza é lei, foi um erro forçar uma ambientação com cenas de tiroteios aleatórios ou uma caminhada por um terreno arenoso do Oriente Médio, como se um soldado em fuga ali estivesse. Poderia se ativer aos muros altos dos territórios muçulmanos que se assemelham a muralhas sobre a estrada. Aquele plano longo e a trilha sonora ali presente, já nos contextualizavam.

Não há aqui demonstração burocrática ou organizacional do processo de servir na Legião Estrangeira. O documentário se restringe a cenas que façam um apanhado da contextualização geral da vida de Bruno, Mario e Felipe.

Realizar esse projeto não deve ter sido coisa fácil, visto as restrições territoriais e militares. Não há aqui tendências críticas, apenas amostras dos prós e contras que variam de acordo com o aspecto de cada um dos três soldados: oportunidade de emprego e sonho de servir ou status social. Mas no fim, o projeto é satisfatório e por mais que ele não possa se aprofundar mais nas três histórias sem varar o tempo de um documentário padrão, as cenas escolhidas para serem postas na película e a montagem, criam uma obra sutil e crua, guiada por um fio condutor coeso.

TRAILER