Mulher Maravilha 1984  Filme é um caos indigesto - Pipocando Noticias


Continuação cinematográfica da maior heroína da DC é um caos tão preguiçoso que chega a desrespeitar o seu público!

A visão da Mulher Maravilha trazida ao mundo por Zack Snyder em Batman vs Superman surpreendeu pela beleza, personalidade charmosa e um prazer bélico intrínsecos à performance de Gal Gadot. E quando foi anunciado um filme solo da personagem, muitos ficaram empolgados, já ouvindo em seus ouvidos a música tema da heroína.


Mulher Maravilha, de 2017, foi uma produção muito básica e agradável nos dois primeiros atos, com um terceiro desastroso. Mas muito superior a este desastre total chamado Mulher-Maravilha 1984.


TRÊS NARRATIVAS DIFERENTES


O início, vindo com agressividade, mostra Diana Prince (Gal Gadot) sendo uma criança e competindo em uma corrida sem sentido contra conterrâneas de Temiscira, com uma cena estranha onde Diana poderia ser ultrapassada, mas não o foi simplesmente porque suas adversárias decidiram retroceder sem causa aparente. E termina com uma lição de moral batida sobre “não se procurar conquistar as coisas facilmente”.

Depois, já nos anos oitenta, contemplamos a Mulher-Maravilha capturando assaltantes de shopping de forma mais demorada do que os seus poderes requeriam, tudo tão forçado quanto à cena inicial da corrida. Esse início indigestamente agitado foi apenas para justificar o filme como uma história de “herói” e não a comédia fraca que se estende por todo segundo ato maçante.

Somos apresentados a três linhas narrativas diferentes, uma mais desinteressante que a outra. Diana divide o tempo entre capturar assaltantes de formas espetaculares (mas ainda assim consegue manter a discrição de sua identidade simplesmente não sendo tão espalhafatosa quanto seu alter ego) e ficar sozinha triste. Barbara Ann Minerva é uma típica nerd que sonha em ser tão desejada quanto a própria Diana. E Maxwell Lord, um falso empresário bem sucedido que na verdade está passando por sérios problemas financeiros e deseja que seu filho tenha orgulho dele.




ROTEIRO PREGUIÇOSO


O centro de toda a trama é uma pedra mágica que realiza desejos. E isso foi o estopim para que a cada cinco minutos de filme, viesse à minha cabeça a cena de Deadpool 2 em que Wade olha para a câmera e diz o quanto o roteiro do próprio filme é preguiçoso. E vemos como essa pedra realiza todos os pedidos de nossos protagonistas e o quanto esses desejos podem ser perigosos (quem diria, não?). E não estranhe se você se sentir numa paródia de filme de herói que mistura as comédias “O Todo Poderoso” e “O Amor é Cego”, as semelhanças são bem óbvias. Quem assistiu vai entender.

Não me lembro de um filme recente de grande orçamento que subestimasse tanto a inteligência do espectador, com tantos diálogos expositivos sem sentido. Mas o que deve ser bem amarrado, como as conexões temporais entre as cenas e o ritmo de desenvolvimento ficam de fora. Porque para o filme, é mais importante vermos várias vezes como a pedra está transformando Bárbara (Kristen Wiig) em uma mulher mais atraente (contando com clichês como a melhora de visão/perda da necessidade de usar óculos). E não basta vermos como ela anda melhor de salto-alto, tem que ter algum personagem para comentar o óbvio, num grande momento de vergonha alheia, não só maior do que o clímax, mas eu já chego lá.

Muitos se perguntaram como Steve Trevor (Chris Pine) retornaria à saga, vista o que aconteceu ao personagem no primeiro filme. E a resposta para essa pergunta não poderia ser mais ridícula não só em conceito como em realização.

É triste ver um grande ator como Pedro Pascal se esforçar tanto na atuação a tal ponto que destoa do tom do roteiro e parece que estamos vendo algum filme infantil e caricato. Os demais atores estão apenas funcionais.


DIFICIL DE ENGOLIR


Quando testemunhamos uma base aérea com aviões facilmente roubáveis e um voou entre fogos de artifício “coincidentemente” em 4 de julho, cheguei a pensar em desconsiderar tudo o que eu não havia gostado no filme até então, com o seguinte pensamento: “Talvez, se observar esse filme como uma produção despreocupada a lá filmes da Sessão da Tarde, eu consiga relaxar e me divertir nem que seja um pouquinho”. Mas não foi possível me permitir encarar os cento e cinqüenta e um minutos de filme nem mesmo sob essa ótica mais otimista. A trama, além de nos desconectar através de incontáveis diálogos expositivos, furos de roteiro e conveniências narrativas, ainda tentou, de forma imatura, se levar a sério. E se um filme tenta se levar a sério e não consegue, não é quem o está assistindo que conseguirá.

Mas uma coisa é impressionante em Mulher-Maravilha 1984: a capacidade de ser ruim em tudo. Como um filme de época é fraco e não aproveita as oportunidades de apresentar as peculiaridades do período histórico, ficando tudo subdesenvolvido. Filme de herói, para ter seu valor, deve ter a queda e a superação do protagonista, mas até mesmo a tentativa desta é trôpega, fugaz e sem valor. Ação? Esqueça, sem inspiração nenhuma. Comédia? Sem graça.


E claro que um filme ruim desde seu início não poderia ter um fim bom e divisor de águas. O final é uma cereja explosiva de um bolo ruim. O que foi pior no primeiro Mulher-Maravilha consegue ficar ainda mais abaixo nesse filme: o discurso sentimental de Diana perante o vilão. Aquele papo fora do tom sobre “amor” no primeiro filme aqui é aumentado na enésima potência e evolui para um discurso motivacional piegas que dialoga com o início da história.


FINALIZANDO


É de causar uma vergonha alheia que transmite a vontade de cobrir o rosto tanto quanto as sequências gore de um filme trash. E perde de vez a oportunidade de ter uma trama mais intimista e bem trabalhada e tenta escalonar para uma forma de desfecho épico e global.

Já era de causar estranheza a trilha sonora de Hans Zimmer não parecer com os trabalhos do próprio. Estava tão pouco inspirada e genérica como o próprio filme. E a gota d' agua da falta de respeito da diretora com o próprio trabalho, foi na cena do discurso risível da Mulher-Maravilha, quando a trilha sonora do momento foi a utilização de recortes da música "Beautiful Lie" que o próprio Hans Zimmer fez para contar a origem do Batman em Batman vs Superman. Não tinha um motivo lógico, mas foi a pura preguiça de se criar algo original. Seria cômico se não fosse trágico.