Servant S01E07: ‘Haggis’ e o Horror da Culinária Ritualística como Instrumento de Poder.
O sétimo episódio da primeira temporada de Servant, intitulado “Haggis”, consolida-se como um dos capítulos mais viscerais. Além disso, claustrofóbicos e simbolicamente densos da produção original da Apple TV+. Sob a égide criativa de Tony Basgallop e a produção executiva de M. Night Shyamalan, a série abandona qualquer pretensão de revelação direta para mergulhar em um estudo de comportamento perturbador e horror sugestivo.
| 5ª Temporada Stranger Things (NETFLIX) – S05E07 – Review
O centro gravitacional da narrativa, um jantar preparado por Leanne Grayson (Nell Tiger Free). No qual ela decide servir o prato tradicional escocês que dá nome ao episódio. A partir desta premissa aparentemente banal, o roteiro transforma a cozinha e a sala de jantar dos Turner em um laboratório de desconforto social. Ou seja, onde a comida deixa de ser nutrição para se tornar um elemento ritualístico de submissão e controle. O horror em “Haggis” não emana de manifestações sobrenaturais explícitas, mas do gesto, do olhar e da repulsa física que o prato evoca. Forçando os personagens a uma harmonia forçada que mascara uma degradação psicológica iminente.
Minimalismo Inquietante
A performance de Nell Tiger Free atinge um novo patamar de minimalismo inquietante neste episódio. Leanne assume o domínio do ambiente doméstico de forma passiva, mas absolutamente intencional. Ou seja, utilizando o silêncio e uma postura corporal rígida para sugerir uma onisciência que desestabiliza os anfitriões. Em contrapartida, Dorothy Turner (Lauren Ambrose) oscila entre a polidez aristocrática e uma fragilidade emocional latent. Revelando que sua necessidade de manter a normalidade é a sua maior vulnerabilidade.
| O livro de algum outro lugar – Keanu Reeves e China Miéville expandem o universo de BRZRKR
O episódio utiliza a preparação e o consumo do haggis como uma metáfora de invasão: ao aceitarem consumir algo que lhes causa asco, os Turner — especialmente Sean (Toby Kebbell), que começa a demonstrar sinais de deterioração física — cedem simbolicamente o controle de sua autonomia para Leanne. Julian Pearce (Rupert Grint) permanece como a única bússola de ceticismo agressivo, embora sua vigilância pareça cada vez mais impotente diante da atmosfera de pesadelo que se instala na residência.

Tecnicamente, a direção mantém a assinatura estética da série através de enquadramentos extremamente fechados e uma paleta de cores fria e opressiva, que amplia a sensação de que as paredes da casa estão se fechando sobre os personagens. O uso inteligente do som ambiente e das pausas dramáticas substitui os sustos convencionais por uma ansiedade perene, tratando o estranho dentro do familiar como o motor principal do medo. “Haggis” é, em última análise, um episódio que não busca agradar ao público ávido por respostas lineares, mas sim àqueles que apreciam o terror psicológico sofisticado.
Ele desloca as relações de poder, retira a máscara de inocência de Leanne e prepara o terreno emocional para o clímax da temporada, reafirmando Servant como uma obra onde o silêncio e o que não é dito carregam muito mais perigo do que qualquer ameaça externa visível.
1 thought on “Servant (Apple TV) | S01E07 – Review”